I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025
Era domingo, e chovia. Não aquela chuva forte que assusta, mas uma garoa fina, típica de São Paulo, que acaricia a cidade como quem pede licença. O Bixiga, com suas ladeiras molhadas, já pulsava carnaval. O relógio marcava 18h, mas o tempo ali parecia suspenso, como sempre era nos dias de ensaio na quadra da Vai-Vai.
As ruas ao redor – Conselheiro Galvão, Rui Barbosa, Treze de Maio – transbordavam vida. Era um ritual: os vendedores montavam suas barracas, as mesas dos bares ficavam lotadas, e a música, mesmo abafada pela chuva, já anunciava que o coração do bairro, a quadra da São Vicente, estava vivo. Camisas pretas e brancas com o símbolo da Vai-Vai passavam de mão em mão, como um uniforme informal. A quadra não era só o lugar de ensaiar, era um altar, e o samba, a oração de um povo que resiste.
Na entrada, a Velha Guarda já ocupava seus lugares. Eles eram as raízes daquela escola. Suas histórias estavam cravadas nas paredes da quadra, e seus sorrisos contavam um passado que poucos se atreviam a esquecer. Os mais velhos já estavam lá; os mais jovens, ainda chegando. A chuva não atrapalharia – nunca atrapalhou.
O samba começava devagar, tímido como quem não quer incomodar. A Ala dos Compositores, num canto da quadra, já mostrava os primeiros versos da noite. Era o enredo sobre Mãe Menininha do Gantois, e as letras traziam o cheiro de Bahia, o som dos atabaques e o peso de uma história que atravessou o oceano. A quadra enchia, os coordenadores de ala ajustavam as filas, e eu, de canto, assistia.
Era impossível não sentir a vibração quando o casal de porta-bandeira e mestre sala entrou na quadra. A bandeira da escola tremulava com a reverência que merecia. Era como se o coração do Vai-Vai estivesse ali, nas mãos deles, para lembrar que aquele pavilhão não era só uma bandeira, mas um símbolo.
“Lá vem ela, a majestade…”
A música ecoava pela quadra, e os pés marcavam o ritmo no chão. Eu fechei os olhos por um instante e senti o calor daquele momento. Era mais que samba, era pertencimento. Ali, entre batuques, suor e alegria, todos eram iguais. Não importava a roupa, o sotaque ou a origem. Na Vai-Vai, o samba era ponte, não muro.
A chuva persistia, mas ninguém ligava. Era uma noite fria, mas o calor humano do Bixiga, entre cervejas, abraços e cantorias, aquecia tudo. Eu observava as fantasias para o próximo carnaval. Era como espiar um sonho em construção. O dourado, o preto, o branco… Cada cor carregava uma história, e eu sabia que aquele trabalho, feito pelas mãos de tantas mulheres e homens, era mais que luxo. Era arte.
A madrugada chegou devagar, e os sambas continuavam. A rua, lá fora, finalmente descansaria. Mas para nós, dentro daquela quadra, o tempo não importava. Era carnaval, mesmo que o calendário dissesse que ainda não era.
Naquela noite, saí da quadra com o coração cheio. O Bixiga, como sempre, me deu mais do que eu poderia levar: amor, cores e carnaval. Hoje, quando passo por aquelas ruas, a saudade me acompanha. Os ensaios na rua já não existem, mas a memória ainda samba. E enquanto houver lembrança, o Vai-Vai viverá.
ISRAEL MOREIRA é jornalista nascido em Campinas, com 44 anos, negro e apaixonado pelas histórias das escolas de samba e seus personagens. Torcedor alvinegro e fiel à Vai-Vai, minha grande paixão no carnaval paulistano. Na carreira profissional, atuei em grandes veículos da imprensa em Campinas, como o Jornal Correio Popular e a Rádio Jovem Pan News. Atualmente, sou produtor na TV Record.”
A ilustração que acompanha o texto é de JEANEMEIRE EUFRÁSIO DA SILVA, formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e mestra em Ciências Sociais e Humanas. Jeane tem consolidado sua paixão pela literatura, fotografia, cinema e teatro.